sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Lúcia

Ele tinha um caso. Sem meios termos, tinha um caso com uma prostituta. Não uma mulher de vida fácil...
Largava a família em casa para encontrá-la. Não pensava nas explicações que daria à amada esposa. Explicava a si mesmo: - Ela não é como as outras. É uma mulher diferente. É inteligente e sabe das coisas.
Era a justificativa necessária. Além do que tinha um lindo nome. Chamava-se Lúcia. Mas não qualquer Lúcia. Uma vez, confessara para si mesmo que era um pouco fora de moda para um pseudônimo. Resolvera, então, perguntar:
-      Por que "Lúcia"? Tantos para escolher. Logo esse...      
-      Uma personagem de um livro de Sidney Sheldon, sabe?!
(Ficara perplexo diante dela sem saber o que dizer. Sentira uma felicidade imensa que não demonstrava. Ela lera seu livro favorito).    
-         “As areias do tempo”?
-       hu hum...


Sentiu-se incomodado porque havia esquecido de que ela não gostava de perguntas (não as respondia, na maioria das vezes).  Não conseguia entender o que uma mulher como Lúcia, tão inteligente e refinada, fazia num prostíbulo. Vendendo-se  para quem oferecesse mais. E o pior é que sentia que ela gostava. Não poderia lutar contra aquilo.

Todos os dias a velha e inseparável rotina começava. Sua única alegria era Lúcia. De vez em quando pensava nos filhos (duas belas crianças), mas sua consciência pesava realmente quando lembrava de sua mulher, e de como todo o amor que sentia por ela foi sucumbido pela paixão avassaladora que Lúcia o proporcionava.

Um homem distinto, sério e respeitador. Entregou-se a uma mulher que mal conhecia. Não sabia nem seu nome verdadeiro, muito menos sua história de vida e os motivos que a levaram até ali. Trocou a estabilidade pelo desconhecido. Queria viver mais intensamente aquela paixão. Não sabia ele que Lúcia se despediria naquela semana.

-         Não me adapto a lugares pacatos. Cansei daqui. Quero viver na cidade grande.
-         E eu? Como vou ficar sem você?

E ela não respondeu mais uma vez. O silêncio tomou conta do quarto. Um cômodo simples, com um lençol vermelho e amassado jogado em cima da cama. Recolheu suas roupas. Saiu com o terno na mão e o nó da gravata desfeito. No longo percurso para casa, uma lágrima escorria em seu rosto áspero, a barba por fazer.

Continuava sem saber quem era aquela mulher. A cada passo dado, desiludido, ela se tornava mais estranha. Agora, apenas uma lembrança.  


* Esse texto é de 2004, mas achei que seria um bom início.